Apenas dez dias após tal declaração, fomos surpreendidos com notícias sobre a invasão da sede de TV do Grupo Clarín, um dos principais meios de comunicação da Argentina, por parte de militares que cumpriam uma ordem judicial que, segundo alegação dos advogados do grupo, foram concedidas por um magistrado fora da sua jurisdição.
Ainda que, supostamente, a razão para tal invasão se dê para busca de informações em face da acusação de que o “Clarín” e o “El Nacion” detém o monopólio sobre a única empresa que produz papéis para os jornais da Argentina, a crise vai muito além.
O Clarín é tido como o principal inimigo do “Kirchnerismo”, uma vez que fez duras críticas durante o mandato de Nestor e, que se tornaram mais fortes com Cristina no poder. Alguns membros do alto escalão do governo argentino, inclusive, já deram declarações públicas de que tal veículo de comunicação é um “inimigo”.
Isso remete a um passado não muito distante, em que o governo do Brasil resolveu criar dois Conselhos: um para o Poder Judiciário, e outro para os órgãos de imprensa.
Ainda que, por diversas vezes, a imprensa realmente distorça informações e siga a interesses de alguns, isso não pode ser generalizado, sob pena de termos de volta um totalitarismo, em que é proibido emitir opinião contrária àqueles que detém o poder.
Apenas para ilustrar, cabe citar o exemplo da própria política. Se atualmente temos acesso às inúmeras denúncias de corrupção, isso ocorre pelo fato de a imprensa ter liberdade de averiguar, apurar e publicar tais informações. Ou, no período militar, fase em que a nossa dívida externa teve o maior crescimento, não havia pessoas de bem e corruptas também?
Como a maioria dos consensos são perigosos, a falta de contraponto e de denúncia nos governos também. Quando um jornalista, por publicar notícias que vão contra os interesses dos detentores do poder, é rotulado de “inimigo” de alguém, isso gera um conflito imenso, bastante ruim para qualquer regime democrático.
Ter honra e idoneidade é fundamental para qualquer pessoa pública. Mas respeitar os outros órgãos, quer seja a imprensa ou os demais poderes, é indispensável para que se tenha uma plena democracia!E o PMDB, que se “encorpou” como o maior partido do Brasil justamente por ter sido a voz da sociedade contra um regime totalitário, sempre foi favorável ao respeito à imprensa e ao contraditório, uma das razões que fez com que inúmeras pessoas passassem a simpatizar e militar pelo partido.
Nesse sentido, ainda com alguns exageros eventuais de alguns setores da imprensa, faz-se perfeita a colocação do Ministro Ayres Britto, tão em voga em momentos de ameaça à democracia de que “o excesso de liberdade se corrige com mais liberdade!”.
JPMDB - PORTO ALEGRE
